quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ben Ben




Quem passou a última virada do ano comigo, lembra bem - ou não... - que eu gritei no microfone que em 2011 meu irmão seria tio. Não sei porque cargas d'água cismei de repetir aquilo a noite toda. Na verdade, eu já arriscava há algum tempo, mas depois de decidir mudar o rumo da minha vida profissional e tentar um mestrado fora do país, os planos ficaram pra depois. Mas aí, na noite do reveillon, muita bebida na cuca, eu cismei: "Vou ser mãe em 2011!". Depois dei vexame, briguei com o DJ e fui dormir. Mas que boquinha... Em março, peguei o avião já grávida para estudar em NY. E, claro, voltei correndo. Essa história todo mundo já sabe também. Foram vômitos e mais vômitos, hospital, médicos, até eu me convencer que deveria estar ao lado das pessoas que eu amava naquele momento e não sozinha do outro lado do mundo.

Bem, sozinha é modo de dizer. O Bento já estava ali comigo. E mesmo sem saber o sexo ainda, eu já sabia que ele era o Bento. Na verdade, desde o dia que descobri a gravidez, eu dizia que seria um homenzinho. Sentia. E, mesmo contrariando o pai dele - que achava um absurdo eu já chamar a criança pelo nome se eu nem sabia o que era - já conversava com ele. E como conversamos naqueles tempos sozinhos, só nós dois. A cumplicidade entre mãe e filho já nascia ali. Num mundo diferente, onde já tínhamos que tomar importantes decisões. E eu dizia "Bom dia Bento! hoje vamos passear no Central Park" ou "Bento, hoje mamãe não aguenta nem botar o nariz na rua. Muito enjoada" ou "Desculpa, meu filho, se estou insistindo muito e te sacrificando. Mas entenda que esse era um sonho da mamãe e ela não quer desistir"... Até que um dia, eu entendi. Entendi que o sonho maior estava dentro de mim, acontecendo. Peguei o avião e voltei para casa.

No aeroporto, o pai do Bento esperava ansioso e encheu mãe e filho de beijos. Ali me dei conta da angustia que Bruno devia estar vivendo com nós dois longe passando por aquela situação. Não era justo mesmo. E com a família reunida, tudo foi se encaixando. A barriga foi crescendo, Bento mexendo e mexendo e mexendo. E esse menino não pára! São 35 semanas com ele aqui dentro, mas a sensação é que ele já está correndo pela casa, tamanha é a participação dele em nossas rotinas mesmo de dentro da barriga.

Bento Guimarães Benjamim. Meu menino tão amado. Não vejo a hora de olhar nos seus olhos para repetir todas as bobagens que conversamos nesses nove meses. Eu e seu pai falamos muito sobre a educação que queremos te dar. A gente pensa que pode te proteger do mundo, quando na verdade você tem que mergulhar nele pra ser feliz. Mas não liga não meu filho, isso é coisa de pai e mãe. Nunca queremos ver o filho sofrer, mas sabemos lá no fundo que o sofrimento faz parte, faz crescer. Fico imaginando como deve ser assistir uma vida surgir assim na nossa frente. Cada passo, cada palavra. Acompanhar, direcionar, aconselhar... Vamos começar limpando, alimentando e, assim, de repente, você já será um homem despertando paixões. E o dia que você se apaixonar pela primeira vez? Eu vou assistir de longe, não quero ser mãe intrometida, mas se você me chamar pra contar, eu vou adorar! Ah, o amor... Essa coisa louca que me aproximou do seu pai, que fez você nascer. Meu menino, um dia você vai entender que esse amor que nos une é a coisa mais importante da vida. E eu e seu pai vamos entender, também, que entre tantas coisas, essa é a que realmente importa te ensinar todos os dias de nossas vidas. Te amo.

Ben Ben
(Bruno Benjamim)

Tem algo novo no ar

Um toque de poesia

Uma nova alegria

Nesse mesmo lugar


Tem algo novo no ar

Que cresce a cada dia

Que nunca sacia

Que sempre me faz chorar


Tem gente que vem

Gente que vai

E tudo me faz lembrar...


Uma fase de tantos sabores

Uma nova rotina de amores


Tem gente que vem

Gente que vai

E isso me faz lembrar...


Uma forma que traz a razão

Qualquer forma perfeita ou não


Bem que me faz

Ben que já é

Bento me traz o bem que me quer


Ben que me faz

Bem que já é

Bem tu me traz o ben que me quer


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Dejavu

Hoje eu caminhava para o trabalho quando passei pelo porteiro do prédio vizinho ouvindo um radinho de pilha. De dentro do arcaico aparelho saiu uma voz que dizia "Nós nunca poderíamos imaginar que algo assim pudesse acontecer. Mas estamos tomando as providencias cabíveis". Ele - seja lá quem fosse - falava da tragédia da chuva na região serrana.
Eu ouvi aquilo e me senti num dèjá vu . Voltei na cobertura da tragédia de Angra, Morro do Bumba... Participei de todas elas e, inclusive, foi de muito que vivi ali que tirei a coragem para pedir demissão.
Fico me perguntando como pode um cidadão ter a coragem de dizer que nada do que está acontecendo é previsto? Só se ele não acompanha jornais ou vive em outro planeta. Todos os anos a história se repete e, mais, frases imbecis como essa se repetem nas rádios, jornais e tvs. E ver jornalistas se contentando com elas é foda. Aliás, a exploração da dor pelos veículos de imprensa nesse momento é uma coisa triste.
E não me venham com o discurso de que "mostrar a dor ajuda a expor o problema e a cobrar atenção das autoridades". Concordo que temos que estar na guerra, nas tragédias, mostrar que tudo isso está acontecendo e cobrar. Cobrar sempre. Mas para tudo tem limite. E o limite, definitivamente, foi perdido por determinados veículos e até determinados repórteres, que esquecem o verdadeiro fim da nossa profissão.
Mas eu não resolvi escrever para criticar a imprensa. Para isso, já existem os políticos - que estão sempre nos culpando por tudo. Estou escrevendo para desabafar. Desabafar a dor que sinto toda vez que os jornais vem com esse caderno especial. Até quando as pessoas vão continuar morrendo de chuva?
A discussão que se ouve nas ruas é: "Mas também esse povo constrói casa em locais de risco!" aí vem o outro e diz "Mas o governo não pode permitir!"... Eu não sei não. Tenho pra mim que a culpa é o que menos importa agora, porque pelo o que estamos vendo não se trata mais só de construções irregulares. A natureza está tomando o que é dela de volta. E quanto a isso, nada podemos fazer. Ela sempre vai nos surpreender, para o bem e para o mal. E não adianta culpá-la, porque a verdade é que em se tratando de homem e natureza, nós carregamos anos de culpa nas costas.
Tenho medo do que ainda pode vir.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Lua de mel

Depois de conhecer Jericoacoara, tudo muda na vida da gente... Primeiro que você começa a pensar o que está fazendo na frente do computador, enquanto aquele paraíso está lá. Com um sol a pino, mar transparente, lagoas doces cristalinas, pôr do sol no mar, comidas incríveis, pessoas felizes, tempo infinito... Na verdade, em Jeri você entende de uma fez por todas que esse conceito de hora e relógio é uma coisa escrota desse meio urbano que a gente vive. Por lá, a gente come quando sente fome, dorme quando sente sono, acorda quando o corpo levanta.
Mas mais do que toda a beleza natural daquele paraíso, eu fico me lembrando das pessoas que vivem por lá. Afinal, enquanto eu estou aqui, na frente desse computador oito horas por dia, Dona Delmira está numa janela de barro, contando para os visitantes a história de TATAJUBA, cidade onde nasceu há 90 anos atrás, mas que teve suas 150 casinhas engolidas pelas dunas. Dona Delmira conta que as dunas engoliram - num prazo de 15 anos - a igreja onde ela se batizou e batizou cada um dos nove filhos. Conta que durante a noite era necessário levantar o lençol a cada cinco minutos para tirar a areia, que invadia as casas. Conta também da Duna encantada, que cobriu um navio amaldiçoado...
Enquanto eu estou na frente desse computador, Francisco leva sua jangada, com alguns turistas, até a margem do mangue e mostra as espécies preservadas por lá. Os caranguejos vermelhos, que segundo Francisco, estavam perigando entrar em extinção, por lá é proibido pescar. Francisco mostra os cavalos marinhos e, com todo o cuidado do mundo, os pega com uma bacia para mostrar aos visitantes. "Não podemos tocar, porque incomodamos eles. Vocês sabiam que o cavalo marinho macho é quem engravida?". E com muito cuidado, pega um grávido pra gente ver, mas rapidinho devolve ao mangue.
Enquanto eu estou na frente desse computador, Geraldo dirige seu bugre, levando turistas pelos lugares mais lindos que já vi na vida. Pedra Furada, Lagoa Azul, Lagoa do Paraíso... Enquanto mergulhamos e comemos peixes e camarões frescos, Geraldo deita na rede e nos espera dormindo.
Enquanto eu estou na frente desse computador, o hippie pernambucano que comprou um terreno por R$ 1000,00 na Lagoa Azul e construiu uma casa de palha - "Toda estilo minha casa", disse ele - está pisando naquele chão de areia tentando vender o "ernie" - um bicho esquisito, porém incrível, feito com fios de arame e dentes de tubarão.
A minha lua de mel me deu muito mais do que uns dias de amor e praia. Me deu lição de vida, me deu questionamentos, me deu a dimensão de que o computador não é merda nenhuma e que nada disso que eu faço todos os dias importa tanto assim... O mundo é muito mais, as pessoas são muito mais. Viva Jeri!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Casamento

Acho bom que muitas vezes eu faça exatamente o contrário do que os outros me aconselham. Mulheres crescem ouvindo que precisam ser difíceis para se valorizar e encontrar, então, um homem que as valorizem. Eu fiz o contrário - fui facinha - e achei o meu príncipe encantado. Muita gente me disse que morar com ele era bobagem...

"Para que a pressa? É tão bom namorar... Quando junta, tudo muda".

Eu então juntei e tudo mudou, só que para melhor!

Quando decidi comprar um fusca, as pessoas diziam que eu era louca.

"Esse carro vai enguiçar, você vai gastar uma grana consertando. É roubada".

Nós então compramos. E o Oliver, hoje, é uma de nossas grandes alegrias.

Aí então resolvemos casar. Casamento, com vestido de noiva, bolo, docinhos e etc...

"Mas pra que isso? Vai gastar muito dinheiro... e vocês já são casados ué".

Decidimos então que o casamento não aconteceria na igreja, nem no papel, apenas na benção da família e amigos.

"Mas ué. Se vai casar com festa, como não vai casar no civil??? Não faz sentido!"

E assim foi. Casamos. Entramos de mãos dadas, muito bem vestidos e confortáveis, falamos algumas palavras, os amigos falaram, a família falou e então trocamos nossas alianças. Com a benção do amor. Esse grande amor que me faz a mulher mais feliz do mundo todos os dias.

A festa foi incrível, mesmo com o número limitado de convidados, acho que conseguimos reunir um time forte e querido ao nosso lado. Todos muito amados e que tornaram esse momento ainda mais inesquecível. Casar foi uma delícia e valeu cada centavo. Casei por amar tão profundamente, que não cabia mais. Esse amor precisava ser dividido, exposto, espalhado. E acho que isso aconteceu da forma mais intensa e perfeita.

Obrigada a todos que me aguentaram - noiva neurótica -antes, obrigada a toda a minha família que tanto torceu, obrigada aos amigos que foram até lá e levaram consigo toda a sua alegria e amor para nós. Obrigada ao meu amor, por me amar assim, por me deixar amá-lo e por, sempre, embarcar nos meus sonhos ao ponto de virarem os dele.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Marcas

Uma senhora de 85 anos, negra, franzina, com um lenço na cabeça e um documento. Com mãos secas e enrugadas, ela tocou meu ombro. "Eu perdi minha casa", falou baixinho. Rapidamente uma repórter de TV se colocou na minha frente e, com o microfone em punho, perguntou. "A senhora perdeu alguém?", ela se bastou a dizer não com a cabeça. Foi ignorada pela então repórter, de forma até grosseira.
Parada ali, sem a atenção das câmeras, Dona Neuza me contou sua história. Por muitos anos foi diarista em casa de família. Para juntar R$ 3 mil e comprar o seu barraquinho, como ela mesma chamou, no Morro do Bumba, em Niterói, vendeu latinha e até pediu esmola. Ali morou sozinha por dois anos. Ela e sua pequena televisão em preto e branco, presente de uma antiga patroa.
No dia sete de abril de 2010, por volta das 21h, Dona Neuza assistia sua novela preferida, quando ouviu um forte barulho. A terra desceu e, como num milagre, a senhorinha de 85 anos conseguiu sair engatinhando dos escombros.
Desde então, já havia passado oito dias. Ela, que circulava pelos abrigos buscando matar a fome, segurava na mão o único bem encontrado do que restou de sua casa. Uma carteira de trabalho. Ao pedir que ela mostrasse o documento, percebi uma certa resistência. A primeira página estampava o motivo da vergonha "Não alfabetizada". Dona Neuza chorou.
Eu ainda choro todos os dias de minha vida...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Pros que ficam...






Um filme passa pela cabeça. São seis anos desde que pisei numa redação pela primeira vez. Era o primeiro passo da realização de um sonho que me consumia desde os sete anos de idade, quando visitei a redação do Jornal do Brasil com a turma do colégio.

Eu finalmente era repórter. E tudo foi uma grande delícia. Mesmo as madrugadas, fins de semana, feriados, carnavais, reveillons e natais trabalhando. Vi de perto muita coisa que muita gente passará a vida vendo pela televisão. E isso mudou a minha vida. Eu mudei a vida de muita gente: para melhor e pior.

Conheci gente importante: políticos, cantores, anônimos com as mais diversas histórias, celebridades e veja só, até Tom Cruise, meu ídolo da adolescência, eu pude conhecer ao vivo!

Presenciei a vida e o fim dela muitas vezes. Vi sangue, sofrimento, mas também participei de lindos encontros.

Fiz amigos para a vida inteira. E apesar de ter conquistado muito do que almejei, me vi infeliz. Por milhares de motivos que não vem ao caso agora. Eu confesso, foi difícil olhar no espelho e dizer para mim mesma que não era mais isso. Mais difícil do que chegar até aqui. Eu fiz a escolha, mas isso não torna as coisas mais fáceis. Eu precisei de coragem para viver esses seis anos e preciso de mais coragem para deixá-los para trás.

É uma nova etapa, uma busca pelo equilíbrio, que eu sinto estar cada vez mais perto. Gostaria de agradecer a todos que me abriram as portas, que acreditaram em mim. Em especial a meu antigo editor André Balocco, que foi mais do que um chefe para mim. Sou grata por tudo, até pels esporros que me fizeram acertar. Aos amigos que me fizeram rir mesmo quando as olheiras saltavam. Amo vocês. Tenho certeza que se, hoje, posso dar esse passo com segurança é porque todos vocês fizeram parte da minha vida. Obrigada.